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quinta-feira, 19 de abril de 2007

O meu big-brother

Quando Orwell escreveu 1984, uma das personagens enigmáticas que se destaca é sem dúvida o Big Brother. Aquele que todos vigia, e por sua vez, que todos adoram.
A capacidade de vigiar só é possível com canais de 2 sentidos. A particularidade desta (Big Brother) é que os canais usados diferem consoante o sentido. Do observador para o observado – Vigia-se. Do Observado para o observador – Adora-se. A assunção passiva do observado é evidente.
Uma investigação rápida sobre esta obra e ficamos a saber que este romance era um aviso para a europa ocidental e mundo, a ser considerado na segunda metade do Séc. XX. (a sombra do comunismo, credo)
O mundo girou, e o conceito mudou. O comunismo fica para trás, e o Big Brother "vira show de tv".

Hoje o conceito de Big Brother está algo mais associado a um controlo coercivo da sociedade, através de meios omissos. Para leigos, é algo simplesmente associado a câmaras de vídeo públicas, utilizadas pelas autoridades de modo a seguirem os nossos passos mais de perto. E isto é o suficiente para assustar muito boa gente com teorias de conspiração, invasão de privacidade, etc etc... venha outro e acrescente um ponto.
Ora, no meu big-brother, o que eu mais receio é este, que já está por toda a parte, e que além de me seguir de perto, segue em tempo real. A comunicação.

Telemóveis. Mails. Telefones. Carros. Cafés. Espaços. Os amigos. A palavra.
Todos os dias, sou seguido e sou seguidor de outros. Todos os dias, a toda a hora alguém sabe onde estou, de onde vim, e para onde vou... até enquanto durmo.
Pensava que a privacidade era algo partilhada, no seu máximo, com o seu parceiro, filhos... e pouco mais. Mas a privacidade que julgava ter, não existe. É um mito.
Qualquer amigo meu, sabe que estou em casa porque falou comigo no MSN, e ao comentar que me vou deitar todos os que se cruzarem com ele, podem ficar a saber para onde vou e donde fui.
Parece obsessivo, mas é desconfortável ter consciência que afinal não estou escondido. Que afinal não tenho um espaço só meu. Que esse espaço é constantemente invadido. E pior, isso acontece, porque eu quero/deixo.
É desconfortável saber que se alguém telefona para casa e não se atende, a mensagem é logo transmitida. «Ele não está em casa. Já saiu.».
Ou alguém ver o carro passar, e reconhece a marca, matrícula o que for. «Olhe, vi agora o AlfmaniaK, passou ali de carro...».
Alguém telefona para o telemóvel, atendes: «Ele está num sítio com barulho. Um bar, talvez!»; não atendes: «Deve estar a conduzir ou num local onde não pode atender»
Sinto-me observado por todos. Julgado por todos. E faço o mesmo a todos.

A maneira como nos observamos fica distorcida diáriamente. Penso que não estou apto a receber tantas informações diferentes sobre a mesma pessoa. A minha imagem dela é distorcida. Faço filmes, crio rótulos e preconceitos. Há quinze anos atrás isto não era possível, ou não era tão fácil. Mas agora…
O mundo por si só já é pequeno, mas estas novas tecnologias da comunicação aliadas à futilidade da nossa essência faz dele um lugar ainda mais pequeno. Será que posso tentar, ou até fingir, que me posso esconder e não revelar mais informação do que a que estou disposto a dar? AlfmaniaK é um escudo que eu tenho. A minha verdadeira identidade não está oculta. Nunca esteve.

Não me queixo. Não posso queixar.
Afinal sou vigiado por todos, e gosto de todos os que me vigiam.

E tu? Deixas que eu te vigie?

10 comentários:

Analycia disse...

É engraçado eu também penso assim... bolas, lá se foi a minha originalidade.

AlfmaniaK disse...

Originalidade. O último reduto da nossa identidade.... Essa com ou sem imitações, é o que nos torna exclusivos e únicos. Terei que falar disso. Mas mais tarde, só mais tarde.

Bjs e volta... estás a ser vigiada! :)

Pipokka disse...

é... tb me sinto vigiada.. a vida é um eterno Big brother...

Jokinhas

AlfmaniaK disse...

Sem dúvida, e somos nós quem o faz. Somos tão inocentes.

Jokkinhas Pipokkinha

Só sei k nada sei disse...

Olha que eu estou aqui a topar-te! cuidado! As paredes têm olhos, ouvidos e língua!!! são umas linguarudas!

AlfmaniaK disse...

Consequentemente: Gosto que me "topes"!

mau feitio disse...

nunca tinha reflectido sobre o assunto. não me agradou minimanente. apesar disso tudo, consigo uitas vezes esconder-me por aí.

AlfmaniaK disse...

Pois... eu também pensava isso, até ao dia em que decidi questionar até que ponto estou de facto oculto! E após uma breve ponderação, concluí que o que penso ser esconder-me é só uma falácia. Ao enganar os outros, estou na realidade a enganar-me a mim próprio.
Podes fugir... mas não te podes esconder!

Maeve disse...

Ainda consigo momentos só meus.

AlfmaniaK disse...

Também eu... mas são cada vez menos.
O último que recordo foi o pôr-do-sol no Sábado. Único. Equiparável ao alinhamento milenar dos astros. Mas agora também tu, sabes deste momento e não és a 1ª...

mas às vezes é assim. A necessidade de partilhar os momentos é maior que a vontade de o guardar só para nós.
Qual foi o último momento que, simplesmente, fosse só teu?